5 de ago de 2013

Sobre tela e tê-la





A tela tem por si só uma gama de significados atrelados diretamente ou indiretamente a ela. Vai desde um tecido fixado, geralmente branco, que leva pelo menos uma mão de pintura ou até mesmo uma superfície fluorescente no qual se projeta uma imagem tal como a televisão. A tela, seja ela um quadro ou um expositor de um filme, tem seu objetivo a projeção tanto de fora para dentro no caso da pintura quanto de dentro para fora no caso de um filme. A tela lança ou puxa para si tudo aquilo que a imagem lhe permite mostrar. Ou até mesmo lança sobre o olhar aquilo que não se mostra na superfície. A tela, bem provavelmente, também expurga.

Em um trançado comum as linhas de algodão se juntam unificando-se até formar um tecido. É uma trama, a formação dessa textura vai então ganhar outro tipo de trama: a intriga ou a conspiração da tinta. E até mesmo a trama cinematográfica, que é da tela que sai. É tudo premeditado.

As pinturas que tramamos em nossas mentes nem sempre condizem com essa pintura que está sendo feita diante dos nossos olhos agora. É uma maldade esse jogo do que queremos pintar com o que estamos vendo sendo desenhado. As projeções choram para o azul quando dão certo e para o cinza quando dão errado.

Agora sobre tê-la tenho outro problema. O primeiro é claramente gramatical, o verbo que me faz tomar posse, ter, está devidamente separado dela, e é ela, esse "la", devidamente chamado de pronome oblíquo átono, longe do meu "ter" por um hífen malicioso ( oblíquo em seu outro sentido) separados na gramática tal como somos separados em vida: pela distância, pelos caminhos ou pelos desencontros.

O hífen que se põe no meio e me impede de a ter, de tê-la. O hífen que me atrapalha de ser dela, de ser tela. Enquanto a tela tudo trama para se unir a espera da tinta que não diz como vai se espalhar e que imagem irá formar, o hífen se torna meu algoz e me deixa estar perto dela mas nunca tê-la. Talvez eu a tenha do outro lado dessa linha que separa. Mas o que se vê talvez não seja isso,os minutos pintam sobre a tela uma trama de separação,que conspira em qualquer tela, seja ela de linho ou de tubos catódicos, e sobre a tela se vê que tê-la é difícil e pinta separa-la. Ela sempre vai estar além do hífen.


Nenhum comentário:

Postar um comentário