19 de ago de 2013

Sobre a gramática da decisão e suas tristezas




          Existem varias palavras em nossa língua que por vezes nos trazem significados agregados e não os percebemos, pelo menos eu não.Porém, em alguns casos, podemos aludir convenientemente significados agregados para essa ou aquela palavra para gerar o efeito necessário. Existem diversos meios na poesia, por exemplo, de alcoolizar as palavras, mas não é o foco aqui enumerá-las( por motivo de não sabê-las em sua totalidade também)e sim, de focalizar especificamente em uma palavra: decisão.


         Adianto, antes de tudo, que não tenho nenhum compromisso com a verdade dos significados ou a etimologia das palavras, mas sim com o que o signo representa pra mim e como ele me faz me sentir. A língua como algo vivo possui seu próprio caráter, e como tudo que tem caráter a língua pode também não o ter. A língua como algo vivo, pode viver como qualquer um de nós e articular até mesmo um comportamento leviano, a língua pode nos enganar com uma ou outra mudança e fazer com que nos percamos ou pecarmos em seu vasto meio. Podemos delatar seu jogo leviano ou dilatar o seu comprimento, mas em um pequeno cumprimento descriminar o culpado e discriminar o insipiente, e se você for um incipiente melhor intender sobre o entender, talvez até enformar antes de se informar. As palavras são francas e elas podem te matar se você for fraco.


          Sobre a palavra decisão temos um significado bastante comum. Uma palavra corriqueira eu diria. Temos por decisão o ato de decidir, que seria: solucionar, resolver, fechar, concluir, optar, dar preferência,determinar e etc. A decisão nos parece algo que nos alivia, decidir algo pode ser tirar um peso das costas, embora uma decisão não seja algo necessariamente bom, decidir me parece algo simplesmente, necessário. A necessidade de decidir vai muito do nosso comportamento não exclusivamente humano, mas decidir é dar preferência a essa ou aquela opção que nos parece mais viável ou simplesmente a menos pior dentre as outras decisões que poderíamos tomar. Mas eu vejo a decisão como uma ruptura e vejo isso não só no significado mas como na palavra em si. Se separarmos "decisão" em dois elementos "de-cisão" temos o "de" que como prefixo pode carregar em si a noção de movimento descendente, separação,negação ou cessação( decodificar, desmistificar) e temos o elemento que eu diria que é o principal: cisão. Cisão é cindir, corte, divisão. Cisão é até mesmo divergência, desarmonia. A decisão possui em si um caráter de ruptura, de separação. Cissão é até um sinônimo de fissão que na biologia( segundo o dicionário) é a divisão de um organismo unicelular. Se a cisão pode ir tão fundo para chegar ao ponto de separar algo único, o que a decisão então poderia fazer em nossas vidas? A decisão, ao meu ver, é uma separação quase sempre geradora de tristezas.

          Para mim a palavra decisão por mais coerente que me seja sempre vai deixar algum tipo de ruptura, sempre vai cindir e cerzir tristezas. Por mais que seja decisões simples ou complexas, mesmo que seja de cortar um laço com alguém ou fazer um laço com alguém, a decisão sempre vai costurar mágoas, pois decidir é dividir seja fisicamente indo embora ou sentimentalmente indo embora do coração. Decidir não é ferir, pois ferir é talhar, decidir é quase sempre magoar, pois talho pode ser costurado mas ruptura é quebra, é divisão. Deixar de ser depois de decidir é muito mais difícil, a decisão tem por ideia não ser retroativa, e se for, é de se acreditar que foi tomada sem coragem, com medo de romper, e se é para não romper é de se acreditar que foi talho e não decisão. Pois retalho é algo que se juntou mas não será mais o mesmo.E por outro lado, não existe "recisão" no sentido de juntar, pois a "rescisão" também significa romper. Tudo isso serve para dizer que toda decisão para mim é tristeza a granel.

Um comentário:

  1. Ultimamente tenho vivido muito esta palavra - não considerando as infinitas decisões as quais tomamos diariamente - e isso provoca receio. Escolher, optar, decidir me traz uma sensação de medo e me faz questionar qual o impacto que isso me trará no futuro, próximo ou não. Essa fase da vida é realmente um tanto complicada e geradora de diversas dúvidas e anseios. Pessoalmente, ter certeza de uma decisão,qualquer que seja, me faz sentir plena e relaxada. Enquanto não ocorre a escolha, fico inquieta e procuro achar respostas com pessoas próximas. Mas por que me preocupar tanto com como minhas ações atuais irão refletir nos meus próximos dias, anos, décadas? Daí eu parto pra outra questão que ocupa meus dias, a "pré-ocupação". Às vezes não aguento tantas coisas que se passam na minha cabeça. Assim, já fica a sugestão pra um próximo post.

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