2 de mar de 2012

Racionais Mc’s e seu contexto social: As marcas dêiticas subentendidas e sem referentes linguísticos nas músicas




O Grupo e seu estilo

Não é o caso aqui colocar em voga a qualidade musical do estilo ou propriamente do grupo e sim destacar os elementos de construção utilizados pelo autor que vão além do discurso e chegam a se misturarem claramente com a questão social. O rap é considerado a “voz dos excluídos” e é através dela que o rapper chega aos outros como um meio de comunicação muito mais eficiente que a mídia, é observável, também, a aversão que eles possuem para com qualquer grande veículo de comunicação.  

Todas as músicas do grupo falam de algumas das dificuldades de se viver na linha ou abaixo da linha da pobreza, sobre a sedução do tráfico e os perigos dele, sobre a vida na cadeia ou de quem saiu dela e muitas outras coisas.  Destaca-se a riqueza das rimas e as incríveis imagens poéticas criadas para climatizar o que está sendo dito. O jogo poético e o alcance do mesmo é simplesmente imensurável. Embora que o rapper não é algo feito para “todos” e não são “todos” que o podem compreender. Pois, é necessário ter vivido aquilo que está na música, é necessário ter testemunhado aquilo, é necessário fazer parte daquilo.

A parte da construção poética é uma das partes mais interessantes, embora o estilo seja totalmente estigmatizado pelas camadas sociais amis altas como som exclusivamente de pobre ou de negro, ou simplesmente “o estilo ouvido por moradores de comunidades”. Existem inúmeros trabalhos acadêmicos no Brasil sobre os grupos de rap e principalmente trabalhos sobre os Racionais. É simples ouvir uma música dos racionais e ver ali tantos jogos de palavras e a qualidade imagética das construções como por exemplo:
Jesus chorou – Racionais mc’s
O que é, o que é?
Clara e salgada, Cabe em um olho e pesa uma tonelada.
Tem sabor de mar, Pode ser discreta.
Inquilina da dor, Morada predileta.
Na calada ela vem, Refém da vingança,
Irmã do desespero, Rival da esperança.
Pode ser causada por vermes e mundanas
E o espinho da flor, Cruel que você ama.
Amante do drama, Vem pra minha cama,
Por querer, sem me perguntar me fez sofrer.
E eu que me julguei forte,
E eu que me senti, Serei um fraco quando outras delas vir.
Se o barato é louco e o processo é lento,
No momento, Deixa eu caminhar contra o vento.
Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável?
O vento não, ele é suave, mas é frio e implacável.
(E quente) Borrou a letra triste do poeta.
(Só) Correu no rosto pardo do profeta.
Verme sai da reta,
A lágrima de um homem vai cair,
Esse é o seu B.O. pra eternidade.
Diz que homem não chora,
Tá bom, falou,
Não vai pra grupo irmão aí,
Jesus chorou!
A sensibilidade e a competência poética do trecho não me deixa dúvidas que isso é sim poesia.

A Dêixis

Elementos dêiticos são como embreagens da língua (Benveniste) são elementos utilizados para dar um contexto ao discurso e são eles que posicionam o locutor, o interlocutor o espaço e o tempo da enunciação. Os elementos mais comuns da dêixis são o “eu”, o “você”, o “aqui” e o “agora”. Para que eles funcionem com total sentido é necessário sempre uma referência, pois o “eu” muda de acordo com quem está falando, embora o elemento seja o mesmo o referente muda, e assim acontece com o “aqui” ou qualquer outro elemento dêitico.  Caso escreva uma carta ou um bilhete utilizando um “esteja aqui amanhã” e esse bilhete não conter data ou o amanhã não estar ligado a uma data, esse elemento não estará completo de sentido e logo, vazio de valor.
Alguns estudiosos da cena enunciativa, da questão da enunciação e enunciado sempre destacam o estudo da dêixis e das anáforas, pois são elas importantíssimas para a manutenção de sentido do texto dentro de um contexto específico. Já que é intimo a relação de um “ele” com um referente anterior, ou simplesmente anáforas ou catáforas como por exemplo “ O meu carro está ruim” e mais na frente no texto utilizar uma frase “ foi algo no volante”, fica, claro que “volante” ai está substituindo o termo “meu carro”, não é necessário explicar de qual volante estamos falando, o sentido permaneceu intacto, nada foi perdido ou confundido.




A Vida É Um Desafio(sem correção)
"tem que acreditar.
Desde cedo a mãe da gente fala assim:
'filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.'
Aí passado alguns anos eu pensei:
Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como ?
Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez.
E sempre foi assim.
Você vai escolher o que tiver mais perto de você,
O que tiver dentro da sua realidade.
Você vai ser duas vezes melhor como?
Quem inventou isso aí?
Quem foi o pilantra que inventou isso aí ?
Acorda pra vida rapaz"
Sempre fui sonhador, é isso que me mantem vivo,
Quando pivete meu sonho era ser jogador de futebol, vai vendo.
Mas o sistema limita nosa vida de tal forma
Que tive que faze minha escolha, sonhar ou sobreviver.
Os anos se passaram e eu fui me esquivando do ciclo vicioso
Porém, o capitalismo me obrigou a ser bem sucedido,
Acredito que o sonho de todo pobre, é ser rico.
Em busca do meu sonho de consumo
Procurei dar um solução rápida e fácil pros meus problemas,
O crime.
Mas é um dinheiro almadiçoado,
Quanto mais eu ganhava, mais eu gastava.
Logo fui cobrado pela lei da natureza, vixi
14 anos de reclusão.
Barato é loco, barato é loco...
É necessário sempre acreditar que o sonho é possível,
Que o céu é o limite e você truta é imbatível.
Que o tempo ruim vai passar é só uma fase,
E o sofrimento alimenta mais a sua coragem.
Que a sua família precisa de você
Lado a lado se ganhar pra te apoiar se perder.
Falo do amor entre homem, filho e mulher,
A única verdade universal que mantém a fé.
Olhe as crianças que é o futuro e a esperança,
Que ainda não conhecem, não sente o que é ódio e ganância.
Eu vejo o rico que teme perder a fortuna
Enquanto o mano desempregado, viciado se afunda
Falo do enfermo irmão, falo do são, intão
Falo da rua que pra esse louco mundão
Que o caminho da cura pode ser a doença
Que o caminho do perdão as vezes é a sentença
Desavença, treta e falsa união
A ambição como um véu que cega os irmão
Que nem um carro guiado na estrada da vida
Sem farol no deserto da trevas perdida
Eu fui orgia, ego louco, mas hoje ando sóbrio
Guardo o revólver quando você me fala em ódio
Eu vejo o corpo, a mente, a alma, espírito
Ouço o refém e o que diz la no ponto lírico
Falo do cérebro e do coração
Vejo egoísmo preconceito de irmão pra irmão
A vida não é o problema é batalha desafio
Cada obstáculo é uma lição eu anuncio
É isso ai você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos
Várias famílias, vários barracos,
Uma mina grávida
E o mano ta la trancafiado
Ele sonha na direta com a liberdade
Ele sonha em um dia voltar pra rua longe da maldade
Na cidade grande é assim
Você espera tempo bom e o que vem é só tempo ruim
No esporte no boxe ou no futebol alguém
Sonhando com uma medalha o seu lugar ao sol porém
Fazer o que se o maluco não estudou
500 anos de brasil e o brasil aqui nada mudou
"desesperô aí, cena do louco,
Invadiu o mercado farinhado armado e mais um pouco"
Isso é reflexo da nossa atualidade
Esse é o espelho derradeiro da realidade
Não é areia, conversa, chaveco
Porque o sonho de vários na quebrada é abrir um boteco
Ser empresário não dá, estudar nem pensar
Tem que trampar ou ripar pros irmãos sustentar
Ser criminoso aqui é bem mais prático
Rápido, sádico, ou simplesmente esquema tático
Será extinto ou consciência
Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência
"o aprendizado foi duro e mesmo diante desse
Revés não parei de sonhar fui persistente
Porque o fraco não alcança a meta
Através do rap corri atrás do preju
E pude realizar meu sonho
Por isso que eu afro-x nunca deixo de sonhar"
Conheci o paraíso e eu conheço o inferno
Vi jesus de calça bege e o diabo vestido de terno
Mundo moderno, as pessoas não se falam
Ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam
Embaralho as cartas da inveja e da traição
Copa, ouro e uma espada na mão
O que é bom é pra si e o que sobra é do outro
Que nem o sol que aquece, mas também apodrece o esgoto
É muito louco olhar as pessoas
A atitude do mal influência a minoria boa
Morrer a toa que mais, matar a toa que mais
Ser presa a toa , sonhando com uma fita boa
A vida voa e o futuro pega
Quem se firmo falo
Quem não ganho o jogo entrega
Mais um queda em 15 milhões
Na mais rica metrópole suas varias contradições
É incontável, inaceitável, implacável, inevitável
Ver o lado miserável se sujeitando com migalhas, favores
Se esquivando entre noite de medo e horrores
Qual é a fita, a treta, a cena ?
A gente reza foge continua sempre os mesmo problemas
Mulher e dinheiro tá sempre envolvido
Vaidade, ambição, munição pra criar inimigo
Desde o povo antigo foi sempre assim
Quem não se lembra que abel foi morto por caim
Enfim, quero vencer sem pilantrar com ninguém
Quero dinheiro sem pisar na cabeça de alguém
O certo é certo na guerra ou na paz
Se for um sonho não me acorde nunca mais
Roleta russa quanto custa engatilhar
Eu pago o dobro pra você em mim acreditar
"é isso ai você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos"
Geralmente quando os problemas aparecem
A gente está desprevenido né não
Errado!
É você que perdeu o controle da situação
Perdeu a capacidade de controlar os desafios
Principalmente quando a gente foge das lições
Que a vida coloca na nossa frente assim tá ligado
Você se acha sempre incapaz de resolver
Se acovarda morô
O pensamento é a força criadora
O amanha é ilusório
Porque ainda não existe
O hoje é real
É a realidade que você pode interferir
As oportunidades de mudança
Ta no presente
Não espere o futuro mudar sua vida
Porque o futuro será a conseqüência do presente
Parasita hoje
Um coitado amanhã
Corrida hoje
Vitória amanhã
Nunca esqueça disso.
A cena musical já no inicio filtra o foco daquele “recado” com o “ desde cedo a mãe da gente”, esse “da gente” vai ser explicado logo depois no “por você ser preto”... depois de  refletir sobre o conselho o eu-lírico começa a falar sobre si mesmo e como aquele conselho não encaixa com a realidade. Mas ai o outro começa a falar sobre a persistência, sobre o sonho e sobre lutas, esse segundo utiliza constantemente o “você”. Segue-se falando sobre diversos contextos como cadeia, fome, sobre desemprego e a vida do crime. Um momento de separação entre rico e pobre é utilizado sobre a metáfora “ vi Jesus de calça bege e o Diabo vestido de terno”, inserindo ai um juízo, um conceito sobre o que é ser rico na visão do outro, do oprimido. Após falar sobre egoísmo e falta de altruísmo ele utiliza um termo mais genérico, querendo ressaltar então que o egoísmo é algo geral:

Mundo moderno, as pessoas não se falam
Ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam
Embaralho as cartas da inveja e da traição
Copa, ouro e uma espada na mão
O que é bom é pra si e o que sobra é do outro
Que nem o sol que aquece, mas também apodrece o esgoto
Analisando a letra da música observa-se o uso de vários elementos dêiticos sem referentes, pois, isso não significa que eles não saibam se comunicar, isso significa que o contexto social das comunidades e das músicas estão diretamente atrelados.  Pegando essa ou outras músicas o “você” é sempre o jovem, negro, confuso que está entre o emprego e a vida do crime. O jovem que está vendo as dificuldades enquanto a mídia impõe o consumismo. Jovem seduzido pela vida do crime e pelo status social que aquilo o dar tão rapidamente dentro daquele mundo. Esse “você”, não é aquele que tá de fora é sempre esse jovem. Como os inúmeros “aqui” que sem referente que se encontram nos rappers é sempre a favela, a comunidade, o lar, a pobreza, a miséria. Por outro lado se vê muito “eles” ou “ele” que indicam diretamente , o rico, a mídia, o opressor.
O contexto social vai além das referências de um texto, a mensagem pode ser entendida pro aquele que vive o que está sendo dito nessas músicas. Não é necessário explicar misérias quando você as vive.

Nenhum comentário:

Postar um comentário